[Post #29] Entrevista com Gorium, do BLΛCK GOΛT CVLT – witch house nacional

Vozes do Underground
Entrevista com a one-man-band
BLΛCK GOΛT CVLT

   O witch house chocou o mundo, talvez antes por sua estética do que por sua sonoridade, e ganhou ligeira notoriedade em 2010 [I] – sendo rapidamente substituído, no trem do hype, pelo vaporwave. Talvez isso tenha sido antes positivo do que negativo – visto que muitos dos artistas desejavam permanecer nas sombras (alguns tinham títulos tão encriptados que mal era possível pesquisar sobre eles) e tampouco tinham grandes interesses econômicos. O resultado? Longe dos holofotes, os oportunistas logo caíram fora e apenas os artistas mais sérios prosseguiram com suas experimentações sombrias – o que em minha visão anticomercial da música evitou que o gênero se tornasse mais ‘leve’ para alcançar as massas.

   Devo admitir que não estou muito por dentro do witch house nacional, o que aliás lamento – mas ao conhecer o BLΛCK GOΛT CVLT senti uma grande satisfação mórbida, pois reconheci todos os elementos tradicionais do estilo; percebi estar diante de uma banda que poderia perfeitamente carregar a tocha do witch house adiante. Tive que juntar bastante coragem para conversar com o homem por trás da música, que para minha grata surpresa me recebeu super bem e discorreu longamente sobre a trajetória do cvlto.

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GM: Qual é a sua idade???
Gorium: 28 anos.

GM: O Black Goat Cvlt é relativamente novo, teve seus primeiros lançamentos em 2016.
Você teve outros projetos anteriormente???
Gorium: Sempre tentei várias coisas em outras áreas da música. Mas existem três que mantenho até hoje. Gorium (dark ambient/industrial), Halo of the Sun (industrial/ experimental) e o GHOS† GO▲† (witch house) – este último está num hiato.

GM: Você pode dizer, por favor, quando cada um destes projetos teve início???
Gorium:
Gorium: 2007
GHOS† GO▲†: 2014
Halo of the Sun: 2015

GM: Certo.
Você tem atuado sempre só ou já participou de alguma banda/teve outras pessoas envolvidas em seus projetos????
Gorium: Tive algumas bandas com outras pessoas, mas sempre mantive um banda solo como meio de não parar com a música. A banda Halo of the Sun, levo junto com uma amiga e mais um membro nas apresentações [ao vivo].

GM: Com três projetos na bagagem, por que você decidiu criar um quarto, o BLΛCK GOΛT CVLT?
Gorium: Em 2014 fui convidado por um amigo (Hewerton Sarx) para montar o GHOS† GO▲† e esta foi minha primeira experiencia com o witch house, acabei ficando apaixonado pelo gênero e após nossa banda entrar num hiato ainda fiquei na sede por criar mais músicas do tipo. Após dois anos resolvi tentar algo por conta própria, pra tentar sanar aquela vontade de compor coisas novas, e então no inicio de 2016 surgiu o BLΛCK GOΛT CVLT.

17360696_1758268514501579_88553540_nGM: O que exatamente te atraiu no witch house?
Gorium: Sempre gostei de fazer música com temática “sombria”, tanto que me foquei em compor dark ambient por muito tempo. Quando fui apresentado ao witch house encontrei neste gênero tudo o que eu já fazia anteriormente, no quesito sombrio, mas com uma batida nova pra mim, que me interessou muito. Logo que aceitei o convite do Sarx para formarmos o GHOS† GO▲† eu me vi diante de um gênero ao qual eu gostaria de me dedicar ao máximo.

GM: Quais foram as primeiras bandas/artistas/projetos que você conheceu?
Gorium: Ritualz (†‡†), Mater Suspiria Vision, White Ring, Salem e CVL† SH‡†.

GM: Quando surgiu em 2010, o witch house atraiu, ainda que ligeiramente, alguma atenção – mas logo voltou a ser algo bastante restrito. Suas páginas na Bandcamp costumam ter poucas informações, aumentando uma certa aura da mistério em torno do cvlto.
As artes são de sua autoria ou de artistas convidados???
Gorium: Não, eu mesmo faço todas as artes. Nos últimos dois LP’s (ΔΛЯҞ ĿĬGĦ† e ΛĿ ΛȤĬƑ) usei fotos de duas amigas minhas e produzi a arte final ΔΛЯҞ ĿĬGĦ†

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No próximo álbum estou pensando em fazer uma adaptação “live action” de uma ilustração de Gustave Doré, que é um artista que aprecio muito.

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arte não utilizada de Dark light

GM: Desde o princípio você tem contado com a participação de diversos convidados. Como tem se dado isso???
Gorium: Normalmente convido pessoas com quem tenho uma certa amizade ou alguém em quem vejo um certo potencial inexplorado para a música.
Trabalhamos em conjunto total na criação de cada música, trocando opiniões e ideias para que o trabalho final fique satisfatório para ambos.
Por ser algo que acontece à distancia, devido a todos os convidados até agora morarem em outros estados/cidades, acaba levando algum tempo para finalizar até mesmo uma faixa mais simples, mas sempre acaba saindo tudo bem.
Tenho em mente algumas pessoas para trabalhos futuros, pessoas que admiro dentro do mundo da música, mas por enquanto nada fechado.

https://blvckgovtcvlt.bandcamp.com/track/k-ep-k-feat-sacrelance-single

[confiram o ótimo single Keep looking, com vocais da Sacrelance]

https://blvckgovtcvlt.bandcamp.com/track/v-feat-santa

[escutem a hipnótica faixa ΔϘVƎЯʘП†Ǝ, com vocais de Santa]

GM: Eu pergunto porque facilmente me apaixono por vocais femininos e diante de participações marcantes eu sempre saio em busca de eventuais trabalhos solos – como no caso de Martina Topley-Bird, eterna parceira de Tricky, ou Butterclock, vocalista convidada do oOoOO.
No caso do CVLTO, eu encontrei a Sacrelance, sem dúvida ótima, e também, variando um pouco meu paradigma, o vocalista Santa, incrível – mas gostaria de saber sobre Lolita, que participou do EP W Ï Ŧ Ͼ H B Ï Ŧ Ͼ H.
Gorium: Lolita foi uma participação não planejada inicialmente, eu a chamei para fazer algumas gravações e por fim resolvi incluí-la no álbum. Ela nunca tinha feito algo do tipo e o resultado foi muito interessante, pois mesmo com a simplicidade de sua voz a música ficou melhor do que eu esperava. Diferente da Sacrelance, a Lolita acabou ficando um pouco no anonimato, mas tenho ideias futuras em que gostaria de contar com a participação dela.

Você citou o exemplo da vocalista do oOoOO, realmente quero chamar alguém pra ser meio que fixo em boa parte das minhas músicas e já tenho uma ideia.

GM: Ótimo saber!
BOREAL 2000 foi uma coletânea, certo?
Gorium: A Boreal 2000 foi um grupo que criei, junto com um amigo, pra reunir pessoas que tinham os mesmos gostos dentro da música, com maior destaque para o cloud rap, vaporwave, horrorcore e trap. O grupo foi crescendo e acabamos descobrindo vários músicos, então resolvemos fazer um trabalho maior, posteriormente o Santa e o Diego Betela resolveram montar um selo pra divulgar nossos trabalhos. Foi então que surgiu o Boreal 2000, na posição de selo musical.


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A garota da capa: inúmeras pessoas sonham com o estrelato, desejam de algum modo ser imortalizadas pela arte – e embora a TV possa ser o meio de comunicação mais cobiçado, existe um público que considera figurar na capa de um disco como uma oportunidade muito mais elevada. Eu conheci Rokayda em virtude deste fascínio por capas de discos: certo dia eu estava na page no Cvlto e encontrei seu perfil, com a ‘capa do disco’. Não pensei duas vezes: alguém que coloca uma capa do BLΛCK GOΛT CVLT em sua foto de perfil SÓ PODE ser uma pessoa legal. Qual não foi minha surpresa ao descobrir o contrário, que ela era a musa cuja fotografia fora escolhida para ilustrar o álbum! Para além desta distinção, recentemente foi anunciado que o Cvlto contará a participação da moça nos vocais:

GM: Aparecer na capa de um disco é, decerto, uma honra que muitos almejam. Como rolou no seu caso?
Rokayda: Bom, eu havia iniciado minha amizade com o Gorium há pouco tempo, pelo fb, e só nos falamos uma vez, até que em uma madrugada ele veio me perguntar se podia usar alguma foto minha na capa do novo EP, então ele escolheu a foto, editou e eu amei o resultado final – mas confesso que fiquei surpresa com o pedido, fiquei lisonjeada por ter minha imagem relacionada a um projeto tão maravilhoso. Depois disso nós passamos a conversar mais e mais.

GM: No caso, vocês se tornaram amigos naturalmente, pelas veredas variadas do destino, ou justamente em virtude do cvlto?
Rokayda: Bom, nossas primeiras conversas surgiram a partir daí, falamos muito sobre o novo EP, sobre as faixas, e em seguida naturalmente fomos abrindo novos assuntos, não só sobre música mas também sobre o dia a dia, e assim nos aproximamos bastante, tanto é que hoje ele é umas das pessoas mais importantes para mim.

GM:  Além de agraciar os fãs com sua beleza sombria, agora você irá celebrar pessoalmente o cvlto: como você reagiu ao convite para ingressar na banda?
Rokayda: Obrigada pelo elogio hahaha, eu fiquei muito surpresa, também um pouco hesitante, porque se eu escolhesse entrar eu estaria assumindo não só os vocais, mas também a responsabilidade, disciplina e o comprometimento com a banda. Tanto é que pedi um tempo para pensar no assunto e o Gorium, como sempre, foi compreensivo. Mas depois de pensar por algum tempo decidi que era isso o que eu queria fazer, me dedicar a algo que eu gosto, então acabei aceitando – e agora estou super feliz com nossas produções. É tudo novo para mim.

GM: E o que você pode nos dizer sobre a dinâmica de vocês, já concluíram alguma faixa?
Rokayda: Os trabalhos estão fluindo bem, estou tentando escrever bastante, gravando, fazendo vídeos, e sim, já temos faixas prontas, porém podemos fazer ajustes de última hora. Gorium e eu somos meio perfeccionistas nas produções, sempre queremos melhorar ou mudar algo.


(retomando a entrevista primária)

GM: Podemos dizer que 2016 foi um ano cheio, com diversos lançamentos. Como você avalia sua discografia?
Gorium: 2016 foi um ano bem surpreendente, varias coisas aconteceram principalmente no culto.
Desde a primeira música que fiz, venho lapidando cada vez mais meu som e deixando naquilo que me agrada. Tenho uma “pira” de que meu trabalho nunca está 100%, mesmo com as constantes melhoras. O EP ΛĿ ΛȤĬƑ foi um marco pessoal, posso dizer que me empenhei muito, além do normal, e o próximo álbum ficará no mesmo nível.

GM: Como você descreveria seu processo criativo? Quais são as etapas de composição e produção???

Gorium: É bem interessante falar sobre isso.
Posso descrever como Emocional e Ritualístico.
A etapa Emocional (composição) vem sempre em momentos inesperados, nunca consigo planejar/criar algo em determinado momento. Eu preciso sentir e expressar aquilo em forma de som e/ou letras, minhas composições fluem dependendo da minha situação mental. Normalmente componho diretamente nos softwares ou com instrumentos físicos (guitarra, violão, violino).
A etapa Ritualística (produção), após compor a base inicial/principal, vou criando a evolução da música. Dentro disso vou sempre fazer quatro coisas, que são praticamente um ritual: primeiro: eu sempre uso os mesmos instrumentos básicos; segundo: normalmente crio alguma arte visual pra complementar a música; terceiro: existe uma pessoa especial que avalia todas as músicas antes de serem divulgadas; quarto: existem, no máximo, 3 versões de todas músicas que já fiz. Após estes passos básicos me sinto pronto para finalizar e divulgar uma música.

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GM: Até o momento, o Cvlto tem buscado ficar nas sombras mesmo: é difícil utilizar a grafia correta nas buscas, o que dificulta o acesso. Ao que tudo indica, você não busca as massas.
Gorium: A intenção nunca foi buscar as massas. Acabei optando por aderir à estética rotineira do gênero (uso de caracteres unicode) para permanecer levemente inacessível, no inicio até pensei em usar apenas um simbolo como nome, mas posteriormente vim a desistir da ideia.

Acredito que essa saída para permanecer nas “sombras” ajuda a atrair quem realmente aprecia o trabalho. Infelizmente dificulta o acesso, porém tem seus pontos positivos.

GM: Também é nítido que você não busca fortuna: quando têm preços, seus lançamentos são caríssimos: U$666, U$999 – ao passo que todos os outros são ‘free’ – não são nem ‘pague quanto quiser’.
Gorium: Chega a ser até estranho, não quero atingir as massas e nem ao mesmo lucrar com isso. O que eu quero fazendo música?
Apenas quero um reconhecimento pelo que faço, de maneira sincera. Claro que pretendo futuramente preparar um material com preço simbólico (nada totalmente programado ainda), mas manterei sempre os downloads free. Muitos músicos/bandas que admiro seguem esse caminho, acredito que em parte isso me influenciou. Minhas ambições vão além de apenas dinheiro. Boa parte das vezes, fortuna só traz cegueira.

GM: Quais são suas fontes de inspiração???
Sei que esta pergunta pode parecer muito ampla, mas seria legal saber o que te inspira no geral (outras artes, a natureza) e também na música.
Gorium: Fora questões pessoais, me inspiro muito em coisas que levam um lado mais “obscuro” dentro da música, cinema, literatura, artes plásticas e performáticas. Também alguns temas dentro do ocultismo, sexualidade/fetichismo, sonhos/pesadelos, misticismo e até transtornos mentais.

GM: O que você tem escutado ultimamente???
Gorium: Tem 6 bandas que ando escutando muito. Pharmakon, Morphine, Atrium Carceri, Doom:VS , White Ring e Maldita. São bêm diferentes uma das outras.

GM: Existe alguma banda obscura, nacional ou de fora, que você gostaria de recomendar aos nossos leitores???
Gorium: Existe uma nacional de dark ambient, uma das minhas influências, é o tipo de banda que se mantém no anonimato. São poucos que conhecem a identidade do criador, infelizmente não sou um deles, sua música é interessantíssima e por vezes perturbadora. Minha indicação é o MAIESTI.
https://www.facebook.com/Maiesti/
https://myspace.com/maiesti

GM: O que o futuro reserva para o Cvlto???
Gorium: Esta é uma pergunta que não posso responder.
No momento, estou focado em materiais novos, incluindo clipes.
Mas o cvlto permanecerá mais vivo e intenso do que antes.

sserefefererereGM: Ótimo saber!
Encerrando, só tenho a lhe agradecer pela atenção e pela oportunidade de conhecer melhor sua produção artística!
Alguma mensagem para os fãs???
Gorium: Juntem-se ao cvlto.

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Assista ao primeiro vídeo do Cvlto.

Acompanhem os passos do Cvlto no fb.

Escutem e baixem seus álbuns na Bandcamp.

Conheça outros trabalhos de Santa em sua page na Soundcloud.

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[post #024] Entrevista com Édy Leonardo, lo-fi sad soul nacional

Vozes do Underground
Entrevista com Édy Leonardo
lo-fi sad soul nacional

Édy Leonardo é mais uma das inúmeras figuras pouco conhecidas a fazer grande música na web. Sob o título de Happy Hearts, ele lançou um EP carregado de melancolia que me cativou no ato: Lost inside (que você ouvir e baixar aqui). Para além do tom sombrio de suas músicas, Édy é uma pessoa muito amigável e atenciosa. Trocamos muitos e-mails e aqui vocês poderão saber mais sobre ele:

GM: Em um futuro próximo você deve seguir com seu nome próprio ou devemos aguardar o surgimento de novos projetos?
Édy: Bem, cada um dos meus projetos tem sua própria identidade. O que carrego de um ao outro na sonoridade é a simplicidade das gravações, prezando o LO-FI (baixa qualidade), mas todos têm de fato uma conexão, a expressão melancólica, o sentir e um certo expurgo através das canções formam a essência que se encontra nelas.
O primeiro projeto Instrumental/Ambient propriamente dito foi o Nostalgia Infantil, exposto na internet em maio de 2015, porém em 2014 eu já havia gravado algumas canções mais como um teste, e até mesmo para expurgar emoções confinadas, digamos que foi um instante de explosão. A este projeto chamei de Dye Naleadoor, um anagrama para meu nome com uma letra ‘a’ a mais, pois achei melhor a pronúncia, rs.
A sonoridade não teve uma identificação clara, alguns disseram ser um Soft Depressive Black Metal, pois ficou “leve”, porém com letras focadas nos temas abordados pelo DSBM, e o EP intitulei de Pain and Thrash. Em 2015 criei um SPLIT com uma faixa deste projeto e outra de um projeto similar, porém com letra em português chamado ‘Sertralina 300mg’, que é o nome de um antidepressivo. E, por fim, neste ano ainda gravei um EP com 3 faixas, encerrando o projeto Dye Naleadoor; com o título Killed By Words, totalmente diferente do anterior, com uma sonoridade mais pesada, próxima então do DSBM puro, também com uma linha de Doom/Dark Metal. Divulguei apenas algumas canções desses projetos no YouTube e Soundcloud, porém eles podem ser baixados, completos, via 4shared.
No início de 2016, então, dei forma ao Happy Hearts, que segue a linha Instrumental/Ambient; e mais recentemente compus algumas canções numa linha Indie Folk, já com meu nome real, e com letras em português.
Mas como citei acima, há um encontro dos projetos despencando em mim, entidades separadas à primeira vista, mas unidas na essência. Eu não gosto de rotular nada, mas digamos que cada projeto é uma etapa, um momento de minha vida… essa seria realmente uma boa definição.
Muito provavelmente surgirão novos projetos, cada um com sua própria identidade. Usar meu nome próprio foi como encerrar um ciclo. Todos os projetos até o atual se entrelaçam de uma maneira e outra. Os novos trafegarão por caminhos diferentes, embora os sentimentos e as emoções certamente continuarão intensas, com a pitada de melancolia sempre presente. Continuar lendo

[post #008.1] (Conversando sobre…) – ‘Hotel’ EP by Dirty Beaches

Um artista pode se tornar grande sem que a essência de sua arte se perca – ou colocando a questão de modo mais simples: é possível fazer um som não comercial por vias comerciais?

Meu assombro acerca do fim do fim do projeto Dirty Beaches [post #008] não foi algo despropositado: ainda este semestre eu comprei uma cópia do EP Hotel, um mini álbum com apenas 4 músicas, todas levadas apenas ao piano, algo que, dentro de padrões mais tradicionais, poderíamos chamar de música minimalista – mas que não foge, em si, da proposta do projeto.

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Embora fosse inegavelmente um queridinho da Pitchfork e certamente não tivesse qualquer dificuldade para arrumar gravadoras para suas ideias mais loucas, este título é uma prova completa de que Zhang não se vendeu – e que tampouco o mercado é louco por suas produções.

De acordo com o encarte (uma página em japonês, suponho, e outra em inglês, como vocês podem conferir nas ultimas duas fotos), durante as turnês europeias de 2011-2012, entre um show e outro, ele encontrava pianos nos lobbys ou nos bares dos hoteis. Então, citando textualmente, “por volta de 3 ou 4 da manhã, quando eu não conseguia dormir, eu me esgueirava pelas escadas, tocava o piano e gravava pequenos pedaços ou mesmo peças de ideias com meu celular”.

Ainda mais notável: “eu não sei tocar piano, como você provavelmente vai perceber ao ouvir este discos, haha. Mas há muitas emoções e ideias que eu considero muito expressivas e sugestivos neste instrumento. Ele me deu a voz necessária para comunicar estes pensamentos muito íntimos que eu gostaria de transmitir para a única pessoa que significa o mundo para mim”.

Gravado em Berlim e Montreal, em 2012, este lp foi lançado apenas durante o ‘Record Store Day’ de 2014, pela pequena gravadora Big Love. De acordo com o Discogs, foram produzidas duzentas cópias, mas apenas 150 teriam sido disponibilizadas para o público; as demais cinquenta teriam sido presenteadas para amigos ou encaminhadas para divulgação.

Agora vem a parte mais louca: não havia nenhuma cópia disponível no Discogs, quando eu conheci o disco, então resolvi tentar a sorte na própria Big Love. Apesar da tiragem baixa, o disco estava disponível. Apesar do site não ter tradução para o inglês, com um pouco de sorte eu apertei todos os botões corretos e dentro de alguns meses eu recebi minha cópia, cujas fotos vocês conferiram acima.

Há algum tempo atrás, alguns veículos de comunicação eram muito comerciais, com pouco ou nenhum espaço para expressões musicais diferentes ou menos comercialmente orientadas. Observar o carinho da Pitchfork por um projeto tão pequeno é uma prova disso – ainda que talvez muitos lá dentro só estejam atrás da ‘próxima novidade’, que em seis meses estará completamente esquecida, alguns críticos ainda reservam para si a ousadia de gostar de boa música, mesmo que ela não venda nada.

[pretendo escrever algo semelhante sobre a Noisey, em breve]

Você ouvir ou fazer um download pago de Hotel EP na Bandcamp, onde também consta a transcrição completa do encarte em inglês.

[post #008] Gone, gone, gone… R.I.P. DIRTY BEACHES – 2005-2014

Passei tanto tempo do ano passado tentando descobrir coisas novas, musicalmente, ou escutando DSBM, que simplesmente não fiquei sabendo que Dirty Beaches havia acabado. Para alguém que vive em um permanente estado de alienação mental [ou em ‘daydream’, como veremos em uma entrevista em breve…], como eu, não saber de coisas é algo bastante normal, mas descobrir isso, estes dias, via Pitchfork, me deixou um pouco para baixo…

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Dirty Beaches é [foi] o projeto do multi instrumentista Alex Zhang Hungtai, cuja sonoridade não posso descrever como nada além de drone music, sem deixar de acrescentar, no entanto, que em cada título foram explorados diferentes espectros musicais, elementos sonoros… talvez… o que estou tentando dizer é ele tenha tentado captar e cativar diferentes emoções nos ouvintes, ao longo de sua discografia. E embora eu não soubesse do fim do projeto, devo dizer que o último lançamento, Stateless, cuja capa encontra-se atualmente na minha ‘galeria de audição’, porque eu realmente não paro de escutá-lo, é bastante melancólico, em especial a última faixa, dialogando acerca da finitude, Time washes away everything, de uma beleza sufocante…

Você pode escutar ou baixar Statelles e, em especial, Time washes away everything via Bandcamp.

Este é um vídeo de uma música de seu primeiro CDR… SIM um CDR, algo tão raro que nem eu me atrevo a ir atrás… mas, honestamente, de uma beleza ímpar…

[post #005] Talv – ‘Üksildus’ – edição limitada em digipack

Vejam só o que o correio trouxe para mim hoje, diretamente do México: uma das poucas cópias física de um grande lançamento deste ano – o álbum Üksildus, do projeto Talv.

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Como vocês podem observar pela última foto acima, este lançamento (four page panel) teve apenas 25 cópias e no o site do projeto consta a promessa de uma versão com 6 páginas [1] – e a julgar pelo capricho da produção e pela beleza da arte creio que serei obrigado a comprá-la também…

Talv é o projeto de A. – que desenvolve um black metal experimental com fortes elementos de shoegaze. Sua sonoridade lembra o projeto português Black Cilice e a capa do cd não poderia ser mais apropriada: você realmente vai se sentir no meio de um nevoeiro, desorientado e confuso ao escutar este disco. Os vocais são completamente incompreensíveis, em um misto de assovio, uivos e lamentos distantes encobertos por muita distorção e camadas de riffs entorpecentes. A cópia física do álbum traz ainda uma faixa bônus não disponível na versão digital.

Você pode escutar o álbum em stream na página do Talv, via Bandcamp, fazer um download pago ou aguardar a próxima edição física. Como não existe muita informação sobre o projeto na web, creio que seria incrível obter uma entrevista, não? Vamos tentar a sorte!

[1] – entre o momento em que comprei o meu exemplar e a data deste post a segunda prensagem já havia sido lançada, com 66 cópias. https://www.facebook.com/misanthropiarecords