[post #008.1] (Conversando sobre…) – ‘Hotel’ EP by Dirty Beaches

Um artista pode se tornar grande sem que a essência de sua arte se perca – ou colocando a questão de modo mais simples: é possível fazer um som não comercial por vias comerciais?

Meu assombro acerca do fim do fim do projeto Dirty Beaches [post #008] não foi algo despropositado: ainda este semestre eu comprei uma cópia do EP Hotel, um mini álbum com apenas 4 músicas, todas levadas apenas ao piano, algo que, dentro de padrões mais tradicionais, poderíamos chamar de música minimalista – mas que não foge, em si, da proposta do projeto.

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Embora fosse inegavelmente um queridinho da Pitchfork e certamente não tivesse qualquer dificuldade para arrumar gravadoras para suas ideias mais loucas, este título é uma prova completa de que Zhang não se vendeu – e que tampouco o mercado é louco por suas produções.

De acordo com o encarte (uma página em japonês, suponho, e outra em inglês, como vocês podem conferir nas ultimas duas fotos), durante as turnês europeias de 2011-2012, entre um show e outro, ele encontrava pianos nos lobbys ou nos bares dos hoteis. Então, citando textualmente, “por volta de 3 ou 4 da manhã, quando eu não conseguia dormir, eu me esgueirava pelas escadas, tocava o piano e gravava pequenos pedaços ou mesmo peças de ideias com meu celular”.

Ainda mais notável: “eu não sei tocar piano, como você provavelmente vai perceber ao ouvir este discos, haha. Mas há muitas emoções e ideias que eu considero muito expressivas e sugestivos neste instrumento. Ele me deu a voz necessária para comunicar estes pensamentos muito íntimos que eu gostaria de transmitir para a única pessoa que significa o mundo para mim”.

Gravado em Berlim e Montreal, em 2012, este lp foi lançado apenas durante o ‘Record Store Day’ de 2014, pela pequena gravadora Big Love. De acordo com o Discogs, foram produzidas duzentas cópias, mas apenas 150 teriam sido disponibilizadas para o público; as demais cinquenta teriam sido presenteadas para amigos ou encaminhadas para divulgação.

Agora vem a parte mais louca: não havia nenhuma cópia disponível no Discogs, quando eu conheci o disco, então resolvi tentar a sorte na própria Big Love. Apesar da tiragem baixa, o disco estava disponível. Apesar do site não ter tradução para o inglês, com um pouco de sorte eu apertei todos os botões corretos e dentro de alguns meses eu recebi minha cópia, cujas fotos vocês conferiram acima.

Há algum tempo atrás, alguns veículos de comunicação eram muito comerciais, com pouco ou nenhum espaço para expressões musicais diferentes ou menos comercialmente orientadas. Observar o carinho da Pitchfork por um projeto tão pequeno é uma prova disso – ainda que talvez muitos lá dentro só estejam atrás da ‘próxima novidade’, que em seis meses estará completamente esquecida, alguns críticos ainda reservam para si a ousadia de gostar de boa música, mesmo que ela não venda nada.

[pretendo escrever algo semelhante sobre a Noisey, em breve]

Você ouvir ou fazer um download pago de Hotel EP na Bandcamp, onde também consta a transcrição completa do encarte em inglês.

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[post #008] Gone, gone, gone… R.I.P. DIRTY BEACHES – 2005-2014

Passei tanto tempo do ano passado tentando descobrir coisas novas, musicalmente, ou escutando DSBM, que simplesmente não fiquei sabendo que Dirty Beaches havia acabado. Para alguém que vive em um permanente estado de alienação mental [ou em ‘daydream’, como veremos em uma entrevista em breve…], como eu, não saber de coisas é algo bastante normal, mas descobrir isso, estes dias, via Pitchfork, me deixou um pouco para baixo…

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Dirty Beaches é [foi] o projeto do multi instrumentista Alex Zhang Hungtai, cuja sonoridade não posso descrever como nada além de drone music, sem deixar de acrescentar, no entanto, que em cada título foram explorados diferentes espectros musicais, elementos sonoros… talvez… o que estou tentando dizer é ele tenha tentado captar e cativar diferentes emoções nos ouvintes, ao longo de sua discografia. E embora eu não soubesse do fim do projeto, devo dizer que o último lançamento, Stateless, cuja capa encontra-se atualmente na minha ‘galeria de audição’, porque eu realmente não paro de escutá-lo, é bastante melancólico, em especial a última faixa, dialogando acerca da finitude, Time washes away everything, de uma beleza sufocante…

Você pode escutar ou baixar Statelles e, em especial, Time washes away everything via Bandcamp.

Este é um vídeo de uma música de seu primeiro CDR… SIM um CDR, algo tão raro que nem eu me atrevo a ir atrás… mas, honestamente, de uma beleza ímpar…