[post #010.1] Vozes do submundo: entrevista com TALV, black metal atmosférico italiano

Eu conheci o projeto Talv durante minhas perambulações digitais pelo YT e não pensei duas vezes antes de comprar uma cópia de seu último álbum, Üksildus [post #005] – palavra que significa ‘isolamento’, na língua estônia. E como eu sei disso? Bem, tomei uma boa dose de coragem e fui muito bem recebido por Andrea Talv, o homem por trás do projeto, cujo anonimato eu estava com medo de perturbar. Ele mora perto de Milão, na Itália, e nós conversamos por muitos dias, pouco a pouco, sobre sua música. Para essa entrevista muito especial ele gentilmente nos presenteou com algumas imagens inéditas!

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(foto oficial de Talv em sua página na Bandcamp)

GM: Bem, que o show comece!
Antes de Talv havia ‘Trees in The Fog’. Por quanto tempo? E por que ele cedeu lugar ao projeto atual?

Talv: Sim, o projeto começou como Trees in The Fog, havia também um logotipo e algumas canções prontas para uma demo, mas antes do lançamento eu decidi mudar o título para algo mais marcante. Talv significa ‘Inverno’, na língua estônia.
“Trees in The Fog” existiu entre o final de 2011 até o final de 2012.

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(logotipo inédito do projeto Trees in The Fog)

 

GM: E quanto ao significado do título do primeiro álbum, My soul is a velvet glove (A minha alma é uma luva de veludo)?

Talv: My soul is a velvet glove é nada mais do que uma demo, um trabalho realmente pouco polido, mas ao mesmo tempo muito importante para a minha evolução. Sobre o significado do título: ele veio à minha mente de repente, sem qualquer premeditação. Isso me faz pensar sobre como, musicalmente, Talv é como uma coisa poética aprisionada em um sentido total de desolação.

GM: A segunda faixa é incrível! Há um ponto no qual você enlouquece, sua voz soa realmente demente e possuída pela loucura, algo muito arrepiante!

Talv: Thanks! Eu acho que Minha alma é uma luva de veludo é realmente um título significativo, um pouco em contraste com a aspereza da música.

GM: As letras não estão disponíveis, acho que elas seriam bem valiosas.

Talv: Sim, eu nunca coloquei as letras online, não é que eu queira seguir a “tendência” do gênero, mas talvez porque elas sejam muito pessoais, ainda que de uma forma “metafórica” ​​… mas, talvez, no futuro, eu disponibilize todas as letras.

GM: É por isso que eu te perguntei sobre o … anonimato, porque a gente nunca sabe quando alguém está sendo esotérico, tímido ou simplesmente não tem tempo ou enfim, você pegou a ideia.

Talv: Sobre o anonimato: eu gostaria de ser mais ativo, publicar notícias na página do Facebook, ou em algum momento postar links para minhas músicas no Youtube, mas Talv é uma realidade realmente underground, ainda porque não tenho qualquer atividade ao vivo, então realmente não sou muito conhecido, mesmo dentro da cena black metal. Mas sim, eu nunca vou colocar um monte de informações sobre mim na web, como você pode ver em Metal Archives ou em webzines

GM: Muito bem.
Entre 2012 e 2014, quando você lançou My soul…, há um hiato. Por quê?

Talv: Nesse período eu continuei a escrever canções e algumas delas foram utilizadas na demo My soul…. Então, eu aperfeiçoei ou adicionei algumas novas partes nas outras canções que escrevi entre 2012 e 2014, e o resultado foi Melancholic wanderings (Andanças melancólicas).

GM: Até agora, sabemos que a música de Talv gira em torno de desolação. Qual é a sua origem? A sociedade moderna, com sua vida agitada, afugenta as pessoas, que buscam na floresta um momento de isolamento, como na era romântica, ou é outra coisa, uma tristeza espectral, uma desolação interior, que faz com que os homens fujam para a floresta?

Talv: Pontos interessantes. Sim, o tema principal de Talv é, sem qualquer dúvida, a desolação. Este sentimento é abastecido principalmente por algo escondido e remoto, como um sentimento de nostalgia por algo desconhecido. Realmente não é simples de se explicar. Certamente, um componente provém de uma visão “misantrópica” da sociedade atual, como você mencionou. E sim, há também uma desolação interior, uma melancolia que está sempre me acompanhando.

GM: O ‘cenário’ tem alguma influência sobre tudo isso? Você vive em um centro urbano ou em um lugar com mais verde?

Talv: Isso pode soar um pouco estranho, mas eu moro em uma pequena cidade não muito longe de Milão, não há muito verde – assim, o lugar onde eu vivo não tem grande influência sobre o que eu componho.

Mas, com certeza, eu sempre amei florestas, montanhas e lugares rodeados pela natureza. Quando tenho a oportunidade de visitar lugares assim  eu reúno muita inspiração.

GM: Entendi.

De onde vem sua inspiração?

Talv: Às vezes da floresta, outras vezes de paisagens naturais, ou talvez durante viagens. Houve um período da minha vida em que eu realmente viajava muito de trem, uma ótima fonte de inspiração.

GM: Livros? Filmes?

Talv: Antes de mencionar livros e filmes, a música em si é outra enorme fonte de inspiração: eu escuto um monte de coisas, black metal atmosférico em primeiro lugar, mas também heavy / power / épic e doom metal, muito thrash e death. Algumas bandas não estritamente relacionadas com o gênero que eu toco também me influenciaram muito, como alguns compositores italianos de qualidade. Eu também sou um “grande leitor” e algumas atmosferas que eu encontrei em obras de suspense ou de horror me forneceram “insights” para minha música. Filmes, um pouco menos.

GM: Ótimo!

Depois de My soul… vem o split Take away my pain, certo?

Talv: Sim, é o primeiro split do Talv, mas na época eu estava trabalhando em To wither away, o split com Schizocaria. Essa era a prioridade, na época, e um trabalho que eu considero muito importante na evolução do Talv.

GM: Então você trabalhou nos dois splits ao mesmo tempo? Como você conseguiu isso?

Talv: Não realmente. Eu estava trabalhando, primeiramente, no split com Schizocaria. Durante os trabalhos eu recebi o convite para participar de Take away my pain, então eu usei uma música que já estava pronta.

GM: De fato, agora que escutei todos os títulos notei que os splits têm faixas antigas; apenas uma, White wolves…, é nova. Mas, pela levada do vocal, eu diria que ela foi composta antes do material presente em Melancholic wanderings.

Talv: Você está correto. O material presente nos splits vem do mesmo grupo de canções, às vezes com uma nova produção ou diretamente regravada. Todo este material foi produzido antes de Melancholic wanderings.

GM: Melancholic wanderings é um passo à frente. Seu estilo vocal mudou muito – por favor, fale sobre isso.

Talv: Sim, nos trabalhos anteriores eu usei um grito clássico [a classic screaming], mas em seguida eu resolvi escolher algo mais “pessoal”, como um uivo e gemido distante, na minha opinião mais adequado à minha “nova” sonoridade. Meus vocais são definitivamente criticados pelas pessoas, que dizem que não os apreciam. Eu respeito a opinião delas, mas de fato eu não pretendo agradar ninguém com meus vocais, pretendo criar uma sensação de desconforto e desolação.

GM: Estou rindo aqui …
Quem não gosta? Este novo estilo vocal é incrível!

Talv: Fico realmente feliz que você goste, entre outros. Felizmente, algumas pessoas conseguem captar  toda a atmosfera do Talv.

GM: No meu primeiro post sobre Talv [post #005] eu pensei em dizer que talvez seja necessário criar um novo termo para este estilo, porque ele soa como um assovio para mim.

Talv: Sim, eu espero que também soe um pouco original, porque ‘vocais de black metal atmosférico e depressivos’ são realmente um estereótipo.

GM: Este álbum foi lançado, em CD, pela Depressive Illusions. Você poderia dizer algo sobre esse processo?

Talv: Sim, Melancholic wanderings foi lançado apenas pela Depressive Illusions Records. Quando o álbum estava pronto eu procurei alguns selos para lançar o trabalho e a DIR me parecia a escolha certa. E eu ainda acho que foi!

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GM: Podemos dizer que você trabalhou neste primeiro título por alguns anos – e então nós chegamos em Üksildus. Quanto tempo você dedicou a ele?

Talv: Sim, Melancholic wanderings tomou certamente mais tempo do que Üksildus; pelo menos dois anos, mas não foi um trabalho contínuo. Üksildus foi produzido em menos tempo, mas com um trabalho mais intenso, por cerca de dez meses. Depois de Melancholic wanderings eu fiz uma pequena pausa, dei um tempo com novas composições, mas nada demais.

GM: Conte-nos sobre o seu processo de composição. Você grava em casa, em um estúdio, o que você grava em primeiro lugar?

Talv: Eu gravo tudo em casa, eu fiz um tipo de “estúdio pessoal”. Meu processo de composição é muito simples: eu pego minha guitarra, tento algumas melodias, e então eu tento desenvolver um pouco mais, até atingir o “esqueleto” da música. Então eu experimento outras sonoridades e, finalmente, eu gravo as guitarras, o baixo e a bateria eletrônica [drum programming]. Por fim, os vocais.

GM: Então você buscou um novo selo, novamente.

Talv: Sim, e ambos os selos que lançaram Üksildus foram ótimos! Edições limitadas, grande apoio ao underground. Eu certamente vou querer trabalhar novamente com estes rótulos: Silentium in Foresta Records e Misanthropia Records.

GM: Lentamente você está se tornando conhecido por mais pessoas. Você gosta disso?

Isso pode ser uma ameaça ao underground?

Talv: Eu admito que, ultimamente, Talv tem alcançado maior “popularidade”, especialmente após Üksildus, e eu estou feliz com isso [exatamente agora, quando estou revisando este texto, a página do Talv no FB tem 499 fãs]. Saber que as pessoas então conhecendo minha música é ótimo. Tenho certeza de que Talv sempre será um projeto underground, eu acho que é a própria essência do projeto.

GM: Ótimo ouvir isso.
E quanto ao futuro?

Talv: Atualmente, há um split quase pronto com duas bandas amigas: Nero Barlume e Cercueils. Este será, certamente, o último trabalho de 2015. Para 2016, provavelmente um EP, mas não um full lenght. Acredito que lançarei um novo álbum [full lenght] em 2017, mas esta é apenas uma agenda “temporária”. Talv certamente vai seguir em frente, talvez com uma pequena evolução em sua sonoridade, mas com o mesmo propósito: melancolia e desolação transformadas em black metal atmosférico.

GM: Uma pequena observação sobre isso: eu ousei dizer que o seu som tem algumas nuances shoegazer – mas você sempre resiste, dizendo apenas ‘atmosférico’. Blackgaze não é contigo?

Talv: Oh, sim, há uma influência shoegaze na minha música, sem dúvida, e eu também gosto muito do gênero, de My Bloody Valentine a Alcest. Notei também que a maior parte das pessoas diz ‘depressive black metal’, mas na minha opinião – Talv – é, em primeiro lugar, um projeto de black metal atmosférico, há um componente depressivo, sem dúvida, uma influência shoegaze, e talvez outros elementos, mas eu prefiro black metal atmosférico .

GM: Tudo bem!
Você gosta de vinil? Uma versão de 10” de Üksildus seria um tesouro para maníacos como eu!

Talv: Eu sou um grande colecionador, mas não curto muito vinil; no entanto, uma versão em vinil de Üksildus poderia ser realmente interessante. Eu definitivamente vou manter em mente a possibilidade de um lançamento assim.

GM: Bem, agora vamos falar sobre álbuns: qual é o disco que você mais ouviu em sua vida? Qual é o melhor álbum de 2015, até agora?

Talv: Essa é uma pergunta difícil: sobre o que mais escutei, provavelmente Master of Puppets do Metallica. Se eu tiver que escolher meu álbum favorito de todos os tempos, minha escolha será Melancholie² do Coldworld, embora existam muitos álbuns que eu adore. Sobre os lançamentos de 2015: eu tenho que ouvir mais alguns álbuns, mas até agora o último lançamento do Drudk, Mgła e, com alguma surpresa, o novo do Marduk.

GM: Qual é a sua idade?

Talv: tenho 28 anos de idade.

GM: Você assistiu o doc One man band, do Noisey? Você curtiu? Você ficaria feliz em participar de algo assim?

Talv: Aquele com Xasthur, Striborg e Leviatã?
Nesse caso, sim, e eu acho que foi um projeto interessante.

Certamente seria interessante para mim participar de um “documentário” desse gênero!

GM: Eu amo covers e versões; você já pensou em fazer alguma versão atmosférica de uma música clássica, de qualquer dimensão musical?

Talv: Eu também gosto de covers, mas estranhamente nunca fiz um em meus lançamentos. Às vezes eu penso em reinterpretar algumas canções de dois compositores italianos de quem eu gosto muito, mas nunca levei essas tentativas adiante.

GM: Quem seriam eles?

Talv: Francesco Guccini e Fabrizio De André.

GM: Muito bem, vamos esperar!

Há alguma banda / projeto underground que você acha que deveria ter maior reconhecimento?

Talv: Alguns projetos italianos: Nero Barlume, Afraid of Destiny, Malauriu, Desolation Hateful.

GM: Para terminar, seria muito bom ter uma imagem exclusiva, talvez você tocando em seu “home studio”, talvez alguma arte não utilizada, algo assim. Alguma idéia?

Talv: Então, eu tenho uma foto que, no futuro, certamente será utilizada como arte, talvez para um EP, talvez para um disco, e eu posso te mandá-la sem problemas. Por ora, eu não tenho nenhuma foto minha durante o processo de composição ou gravação, infelizmente.

 

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GM: Eu não tenho palavras para te agradecer!

 

Talv: Foi um prazer – e obrigado!

 

Você pode escutar, baixar e comprar álbuns do Talv na Bandcamp.

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